O desvio do vento: Argélia

Passat, um vento que cruza a Europa de Leste a Oeste, foi desviado para o Brasil, adaptando-se muito bem ao nosso clima e ecoando pelo resto do mundo. Um dos primeiros movimentos desse vento rumo a outros continentes, a Argélia teve suas ruas dominadas pelo Passat.

A Argélia é um país de grande território às margens do mar mediterrâneo e teve importância estratégica para o comércio na região por séculos. Dirigindo-se para o interior o clima árido do maior deserto do mundo limita a utilização do território. País de contrastes, há altas montanhas, com temperaturas que remetem aos países europeus, com direito a neve em pleno continente africano.

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Foto: http://the-rioblog.blogspot.com.br/2010/12/conheca-surpreendente-argelia-onde-o.html

Como todo território africano, foi cordialmente dividido entre países europeus, ficando sob domínio francês por décadas. Basta ver o mapa do continente para observar que as terras foram divididas com uma régua, recortado na medida do interesse dos colonizadores, sem considerar as tribos e o povo que ali residia, unindo inimigos e separando irmãos.

Esse domínio diminuiu a cultura do povo que originalmente habitava a região, que no caso da Argélia passou a fazer uso da lígua francesa e dos hábitos trazidos pelos colonizadores. As colônias enriqueceram os países europeus, causando inveja daqueles que não participaram da divisão, gerando dois conflitos mundiais que vitimaram milhares de pessoas e mudaram o mundo.

Num processo inevitável, muitos países recortados e dominados pelos europeus começaram a ganhar consciência e força de seus ideais, gerando um movimento pelo fim das colônias. Muitos países passaram por revoluções, a Argélia inclusive, de modo muito violento e cercado de atentados de ambos os lados do conflito.

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Foto: http://the-rioblog.blogspot.com.br/2010/12/conheca-surpreendente-argelia-onde-o.html

Ainda na década de 1960 o país deixou de lado o domínio francês conquistanto sua independência, com a retirada de muitos colonos e seguindo a doutrina árabe, tanto na religião quanto na lígua. O país sofre com uma identidade cultural que passa por três línguas e a escolha de uma religião única, o que acaba por extinguir todas as tradições do povo originário daquelas terras.

Argélia1A alguns dias nosso amigo e grande colaborador Cláudio Pessoa se dispôs a pesquisar sobre os Passat que foram destinados à Argélia. A imagem dos carros à espera de transporte no pátio já surgiu no blog por duas vezes, sendo o grande estopim para essa pesquisa.

Num site de pesquisas o resultado acabava remetendo ao site www.imcdb.org, que faz uma listagem dos carros que aparecem em cenas do cinema mundial. Lá Cláudio chegou ao filme argelino de 1982, cujo nome é “Zawj Moussa”, recebendo o título francês de “Le Mariage De Moussa”.

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O cinema argelino despontou na década de 1960, cuja temática era por vezes sobre a questão da colonização do país. Ainda sob muita influência francesa, é possível ver as ruas do país tomadas por modelos Renault, Citroen e Peugeot, além de uma boa quantidade de Passat.

passat_argelia_film_04 passat_argelia_film_01 passat_argelia_film_02Cláudio não se contentou com poucas passagens com Passat no filme e resolveu fazer um grande sacrifício. Assistiu a um filme argelino com legendas em francês, lígua que não domina. Cada Passat deve ter recebido dele um grito semelhante ao torcedor em dia de jogo após um gol. Coisas que só um apaixonado por Passat pode entender.

passatargeliafilm07 passatargeliafilm13 passatargeliafilm14 passatargeliafilm17Não obstante, passou a pesquisar se havia modelos à venda no país atualmente. Como é de se esperar, o estado dos carros não é dos melhores, após tantos anos no calor africano e no cotidiano de seus proprietários.

Como imaginávamos, eram modelos de 5 portas, quatro laterais e uma grande tampa traseira do porta malas.

passatargelia3 passatargelia5 passatargelia6 passatargelia8Embora utilize frente com grade, faróis e frisos compartilhados da versão TS, o carro apresenta acabamento semelhante à versão LS, sem o uso dos bancos altos.

pastarge3 pastarge4 pastarge5A pesquisa ia tomando forma no nosso fórum, recheando de informações que até o momento eram desconhecidas (os esquecidas). Enquanto o assunto era debatido e seguia apenas com fotos atuais e sem muitos dados sobre o contrato, eis que nosso amigo Saymon Machado tirou um coelho da cartola e encontrou uma nota no Jornal do Brasil sobre o contrato de exportação firmado pela Volkswagen com a Argélia:

passatargeliaBingo! Temos um número, 15 mil Vw Passat fabricados no Brasil enviados à Argélia. Até então o que tínhamos era uma foto do pátio da empresa e imagens das ruas do país. Agora temos mais uma excelente informação para os leitores, graças ao empenho dos amigos Cláudio Pessoa e Saymon Machado.

prop_82expApesar de importante para a Volkswagen, as operações na Argélia não aparecem na propaganda de 1982, que orgulhosamente estampa os países que receberam o Passat brasileiro. Mais um destino carimbado.

Apenas para encerrar o post, Cláudio cita trabalhos do saudoso Oscar Niemeyer na Argélia, que realizou obras na Universidade de Constantine, em 1969.

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Foto: http://the-rioblog.blogspot.com.br/2010/12/conheca-surpreendente-argelia-onde-o.html
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Foto: http://veja.abril.com.br/

Resta o mistério: Será que algum desses “argelinos” desviou a rota e por aqui ficou?

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13 pensamentos em “O desvio do vento: Argélia”

  1. Mais um ótimo texto, misturando a história do país com a do Passat,”très bien” Artur. 🙂

    Alguns Passat que aparecem nas fotos do filme parecem ter vindo da Alemanha (farol quadrado) não?

    1. Jão, imagino que está se referindo principalmente a quarta imagem do filme. Nesse instante a câmera está dentro de outro carro em movimento e a imagem congelada fica borrada, mas se ver o filme da para perceber que esses e todos os demais que aparecem de frente tem quatro faróis redondos.

      1. Agora que comentou, eu reparei melhor na foto e realmente, o borrão me levou a crer que tinham os faróis iguais aos primeiros feitos na Alemanha. Olhei com mais atenção é ambos tem quatro faróis. 🙂

  2. Mais uma vez sensacional! Admirável trabalho, com colaborações fundamentais. Não resta a menor dúvida de que o blog é feito não apenas por duas pessoas, mas por muitas que sempre tem algo importante a acrescentar.

    Então deixo aqui meus parabéns tanto ao Artur, quanto ao Cláudio e ao Saymon, que são brilhantes colaboradores.

    E repararam que em uma das fotos tem um 5 portas com a tampa traseira “a la” 4M?

  3. Muito bom!!!

    Uma pena que não tirei fotos do Argélia que estava no encontro do Cambuci Domingo. Apesar de totalmente descaracterizado, era um sobrevivente.

    Eu marquei o número de chassi dele…quem se habilita para realizar pesquisas de outros modelos que ficaram no Brasil? 😀

    1. Heitor, infelizmente também não o fotografei. Confesso que fiquei muito surpreso, principalmente aparecendo justo no primeiro encontro que eu fui depois de abordarmos o tema no fórum. Aliás, o que acontecem de coincidências comigo relacionadas ao Passat não é brincadeira (rsrs). Realmente muito descaracterizado, de tal modo que uma volta a origem ficou praticamente inviável. Se alguém puder saber mais pelo número do chassi que você anotou será muito legal. De uma hora pra outros mais dois sobreviventes (hehe).

  4. Ficaram excelentes o texto e a disposição das fotos neste post!
    E a gente tá aqui pra colaborar tbm, seja no que for, esse é o espírito!
    Sou muito grato aos passateiros aqui do blog, do Face e do fórum da HP, sempre que precisei, tive auxílio!
    A história desse carro não pode ficar esquecida, foi um marco da indústria automobilística brasileira e de muito importancia para a vwb (mesmo não tendo o reconhecimento que merece), e fico grato em poder colaborar nem que seja com uma simples nota, valeu amigos!

  5. Artur, parabéns mais uma vez, você se superou! Mais do que falar do Passat deu um belo enfoque a história e ao contexto do país. Detalhes muito importantes e enriquecedores. Se eu fosse um cidadão argelino me sentira honrado em ler, embora faça questão de dizer que é assim que me sinto por ter participado dessa pesquisa, uma grande satisfação. E parabéns ao Saymon também!. E vamos em frente agora localizar o Passat brasileiro no Kuwait, nas Filipinas e qualquer outro canto do muito onde possa haver um. E especial a surpresa do Passat “argelino” bege que você encontrou, conte mais sobre. Fiquei com vontade de vê-lo pessoalmente (hehe).

  6. Amigos agradeço pelos elogios. O texto é fruto da pesquisa dos amigos, pois sozinho acabamos buscando sempre nos mesmos lugares e com as mesmas limitações, sendo que com várias pessoas envolvidas na empreitada sempre surge algo surpreendente.

    A pesquisa feita pelo Cláudio e a paixão com que ele fez isso solucionou um mistério de alguns anos, desde que o Passat 5 portas de Umuarama surgiu na galeria, há muitos anos.

    O texto é de um tema que gostamos, deixando a leitura interessante para quem gosta. Ainda preciso melhorar na técnica, ler mais e aprender não só sobre Passat.

    Mandem ideias que nós vamos trabalhando no fórum, no blog e até no Facebook.

    1. Artur, depois de comentar aqui entrei na galeria de fotos da HP e vi as demais fotos do carro. é um exemplar que merece atenção. Está identificado como LSE, mas sabe se está assim no documento? Estou imaginado que é um “LS Argélia”, talvez até hoje considerado LSE pela frente de quatro faróis.

      Uma curiosidade, a Argélia é um país que pouco visita os noticiários. A última vez que ouvi, ou melhor, li uma notícia sobre foi por conta de um projeto de uma biblioteca que Oscar Niemeyer fez para o país em seus últimos anos de vida. De repente, enquanto abordamos o tema surge na Argélia um grupo terrorista que, em represália a uma ação militar francesa no país vizinho, faz reféns vários estrangeiros e o país ganha destaque nos noticiários. Cada coincidência, hein?

      1. Olá Cláudio! Pensei a mesma coisa quando assisti sobre a situação do ataque terrorista no país, acabou tornando-se um assunto atual.

        Acho que o LSE da galeria é informação por conta do próprio dono, mas resta a curiosidade de saber mais sobre o modelo e o nome comercial dele. Seria uma versão única sem nome, apenas Passat?

  7. Parabéns para todos os colaboradores por essa aula de mais um capitulo da “Historia do Passat”.
    Mais uma vez eu digo, merece muito entra pro Livro do Passat, mesmo que seja numa re-edição. Abraço!

  8. Parabéns pela reportagem! Além de falar sobre um fato interessante sobre as exportações, me esclareceu a dúvida se existia Passat 5 portas! Obrigado!

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