Merece um brinde!

4m10anos_01Há exatamente 10 anos eu acordei cedo, peguei um ônibus de Niterói até a Central do Brasil e pela primeira vez (e até agora única) peguei um trem. No caminho um maluco (ok, sei que é politicamente incorreto falar assim) me mostrou desenhos sem muito sentido que fazia em um caderno, ouvi dois ou três fanáticos religiosos fazendo pregações e comprei um pacote de balas com um vendedor ambulante. Fui parar no bairro de Anchieta, onde dias atrás eu já havia ido. Subi uma rua residencial, de casas grandes e de estilo antigo. Toquei a campainha de uma delas e fui recebido pela Mônica e pela Sra. Marilene, pessoas da maior simpatia e que a partir daquele dia me confiariam um bem muito precioso para elas. Naquele dia 26 de agosto de 2003, eu fecharia a compra de um Passat 4M.

Carro de único dono… O Sr. Miranda, pai da Mônica e marido da Sra. Marilene (e que já teve uma foto publicada aqui no blog), havia encomendado um Passat LS branco na Bittig, concessionária VW que já fechou as portas, assim como tantas outras. No dia 7 de janeiro de 1978 ele foi até lá buscar o carro. O gerente, meio sem graça, disse que a fábrica não havia enviado o carro. E que se ele não quisesse esperar, venderia um outro Passat que havia chegado. Este Passat havia sido encomendado para o uso do próprio gerente, mas ele disse que não teria problema em vender o carro para o Sr. Miranda porque depois encomendaria outro igual para a fábrica. O Sr. Miranda foi até lá e conheceu aquele Passat diferente. Tinha jeito de TS, mas um comportado motor 1.5 como o LS que ele havia pedido antes. Ele adorou a cor, o interior em tons de marrom, os detalhes… Deixou de lado a vontade por um carro branco e ficou com ele. A Brasilia que ele tinha deu lugar ao Passat 4M. E assim foi a história até que completasse quase 25 anos. Aquele Passat foi o carro de uso diário dele. Viagens, trabalho, inúmeras ofertas de compra recusadas, principalmente nos últimos anos… Ele sim, foi um “passateiro” de respeito.

Até que no finalzinho de 2002, o Sr. Miranda veio a falecer. O Passat ficou parado na garagem por uns meses e alguns problemas levaram a família a precisar se desfazer dele. Anunciaram na internet, com três fotos pequenas e antigas, além de uma breve descrição. Um amigo mostrou o anúncio na lista de discussão da Home-Page do Passat no Yahoo Grupos. Eu vi, achei interessante e deixei pra lá. Depois de um mês surgiu uma oportunidade e lembrei do anúncio. Pensei que era perda de tempo telefonar, porque depois de tanto tempo já teriam vendido o carro. Arrisquei. Procurei o anúncio, peguei o telefone em um dia de semana qualquer a noite e conversei com a Sra. Marilene. Tímido, perguntei “Boa noite, estou ligando por causa do anúncio de um Passat e gostaria de saber se ele ainda está a venda”, já quase sem esperanças. “Ainda está”, ouvi do outro lado da linha. Combinei de ver o carro no final de semana. Foi a primeira vez que vi um 4M pessoalmente. Eu não conhecia quase nada sobre o modelo, as informações eram quase inexistentes. Devo ter ficado tão surpreso com as características da versão quanto o Sr. Miranda ficou em 1978. Como não havia possibilidades de fechar negócio no final de semana, me comprometi a ficar com o carro e combinamos para a semana seguinte. Junto com esta promessa, prometi também cuidar bem do carro, claro! E voltamos para o início deste texto, quando eu disse que fui buscar o bem material mais precioso da Mônica e da Sra. Marilene. Comprei um carro e acabei sendo guardião também de um sem número de lembranças desta família, o que é, convenhamos, muito mais importante que um bem material.

Uma das primeiras fotos após a compra, em 2003.
Uma das primeiras fotos após a compra, em 2003.
O primeiro evento, ainda com pára-choques amassados, grade quebrada, emblema fora do lugar...
O primeiro evento, ainda com pára-choques amassados, grade quebrada, emblema fora do lugar…

Já no primeiro dia, entre ida e volta ao Centro da cidade para proceder com a burocracia necessária para a compra de um bem ainda em inventário, a volta para o bairro de Anchieta e depois enfim a ida para Niterói, acabei rodando cerca de 100km. Assim, mal nos conhecendo, eu e o 4M, já o levei a rodar por vias de trânsito pesado e por vezes engarrafado como a Av. Brasil, Av. Presidente Vargas e outras que eu atualmente penso duas vezes antes de enfrentar ao volante de qualquer carro. Chegando em Niterói, guardei o carro em sua vaga e lá só pude voltar dias depois, para enfim poder me divertir. Ao abrir a panela do filtro de ar, pra começar a verificar o que deveria ser trocado para a manutenção de rotina, cadê ele? Foi uma das primeiras coisas que precisei providenciar… Aos poucos fui descobrindo o carro, seus problemas, suas qualidades. Era um carro de uso normal, portanto nada mais justo do que ter problemas a resolver, além de algumas coisas fora do padrão original que o tempo e a vida modificam. Aos pouquinhos fui completando algumas peças do quebra-cabeças, um jogo que ainda não terminei. Um pouco da graça de ter um carro antigo está nisso também. Poucos meses depois da compra, fui pela primeira vez como expositor um encontro de carros antigos. E naquela época o Passat ainda não era um carro muito bem aceito nos eventos. Uma coisa de certa forma normal, que aconteceu antes com outros modelos nacionais. Aos poucos isso foi mudando, e tenho orgulho de pensar que pelo menos aqui no RJ eu e o 4M fizemos parte de uma pequena legião de sonhadores que ajudou a mudar essa imagem. Por causa deste carro conheci grandes amigos e nele fiz passeios inesquecíveis. Por causa deste carro e destes grandes amigos (e dos carros destes grandes amigos) nasceu o Passat Clube – RJ. Por causa deste carro já acordei às 5:00 pra estar antes de 8:00 em Itaipava, só pra garantir a vaga para o clube em um evento. Por causa dele já rodei concessionárias distantes em busca de peças perdidas em velhos estoques, gastei manhãs de sábado na Biblioteca Nacional e em sebos buscando as propagandas de época. Por causa deste carro tive alegrias que não consigo enumerar e algumas poucas tristezas também.

Passeio a Saquarema, 2005.
Passeio a Saquarema, 2005.
Viagem a Visconde de Mauá - RJ, 2006.
Viagem a Visconde de Mauá – RJ, 2006.

Em 2006, em um dos capítulos mais divertidos da minha história com este carro, fui convidado (não… eu não fui convidado pra nada… o 4M foi!) para participar das gravações de um filme. O 4M virou coadjuvante de cinema. Por alguns dias me sentei ao volante dele, quase sempre em horários não muito convencionais, e fomos a vários bairros da Zona Sul do Rio, participar dos sets de filmagem. Cruzávamos as vias expressas em plena madrugada, ao som do rádio FM e seguindo a iluminação amarelada dos faróis… Ou voltávamos pra casa em pleno horário de rush de uma sexta-feira, enfrentando 3 horas de engarrafamento pra fazer um trajeto curtíssimo entre Ipanema e Niterói. Em um final de expediente mais alternativo e não desejado, voltamos pra casa pela primeira vez em um reboque, depois que o cabo do acelerador, que eu havia trocado há poucos meses, arrebentou no meio de uma cena e não havia tempo hábil pra consertar e nem como arrumar um cabo novo em plena madrugada no bairro de Botafogo.

Em uma das cenas do filme "Meu nome não é Johnny", gravado em 2006. Foto: divulgação
Em uma das cenas do filme “Meu nome não é Johnny”, gravado em 2006.

Aliás, foi com ele que perdi o medo de mecânica. Não virei um mecânico. Estou longe, bem longe disso. Mas foi no 4M que arrisquei meus primeiros passos pra fazer reparos simples, que antes me pareciam terrivelmente complexos e cujos procedimentos só poderiam ser realizados por especialistas altamente gabaritados. Com este carro aprendi a trocar radiador, bomba d’água, desmontar um carburador, tirar painel, encaixar painel, desmontar acabamentos, ajustar a correia do alternador, trocar platinado, entre outras gambiarras. E ele ainda vai me ensinar mais coisas, eu garanto. Com ele aprendi também a assoprar um giclê. Nada mais gratificante para um dono de carro antigo do que assoprar um giclê e ter todos os problemas solucionados.

Porém, não sou o dono ideal e o 4M sabe disso. Eu também faço minhas maldades, tenho meus desleixos. O último foi ter deixado o 4M parado por 3 anos (também já contado por aqui). Em uma fase de mudanças na minha vida, não tive tempo suficiente pra ele. Fazia uma visita esporádica, deixava o motor ligado um pouco… E nada mais. Como vingança, na primeira voltinha depois de tanto tempo parado, o 4M desfez suas buchas do trambulador em mil pedaços. Foi quase um “Viu o que eu posso fazer se você me esquecer assim de novo?”. E lá fomos nós outra vez passear de reboque.

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Evento no Museu Conde de Linhares – 2012

Muitos pensam que é apenas um carro. E talvez seja apenas isso mesmo. Só não tente me convencer disso… Sei que não sou o primeiro a completar 10 anos com um carro. Tenho certeza de que não vou entrar pra nenhuma lista de recordes e tenho amigos e conhecidos que me venceriam com facilidade se isso fosse uma competição. Mas estes 10 anos foram especiais pra mim. Aprendi muito, me diverti mais ainda e sofri um bocado também. Obrigado, amigo, por me aturar por tanto tempo sem reclamar muito dos meus cuidados.

Surfando no Passat Surf

Um Passat Surf da safra 1979-1982 fazendo o que o nome da versão sugere, na pista de testes da VW na unidade do bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo.

A imagem foi disponibilizada pelo Vlamir Garcia, um verdadeiro apaixonado pela VW do Brasil e responsável por uma saudável troca de informações importantes e pouco conhecidas através do grupo que criou no Facebook, o Memória Volks BR.

surf_testevw

Since 1996…

Hoje, lendo os posts que apareceram no Facebook, descobri que o dia 19 de agosto é comemorado por diversos motivos. Hoje é o Dia do Historiador, Dia Mundial da Fotografia, Dia do Ciclista… Hoje também é aniversário do Sistema Brasileiro de Televisão, a emissora do “patrão“. Mas além de todas essas comemorações importantes, outra bem mais discreta também acontece.

Foto original cedida gentilmente por Vlamir Garcia. Idéia e montagem: Pedro Ruta Jr. e Marcelo dos Anjos.
Foto original cedida gentilmente por Vlamir Garcia. Idéia e montagem: Pedro Ruta Jr. e Marcelo dos Anjos.

Há exatos 17 anos a Home-Page do Passat entrava no ar, no finado provedor gratuito Geocities e com duas ou três páginas apenas, recheadas de umas 20 fotos digitalizadas com um scanner de mão emprestado. Ah, sim… Tudo digitado no Bloco de Notas do Windows e testado no Netscape (que muitos nem devem saber do que se trata). Era o que dava pra fazer em 1996, em um velho (mas nem tão velho na época) PC 386 DX-40… Não vou ficar aqui recontando a história em detalhes, porque a maioria já deve estar sem paciência de ler mais uma vez. E nem farei um longo texto. Só gostaria de deixar registrado aqui neste post que, mesmo entre os altos e baixos de atualizações do site (que hoje tem este blog, fórum, grupo e página no Facebook, perfil no Twitter e provavelmente mais alguma coisa que eu estou esquecendo de citar), é uma honra estar a frente deste site, que vem me proporcionando inúmeras amizades durante todos estes anos. Sendo que alguns amigos foram e ainda são muito importantes para que a Home-Page do Passat continue em atividade.

Agradeço a todos que estão e já estiveram por aqui, seja contribuindo, visitando, sugerindo… Ninguém faz nada sozinho. Espero poder manter este espaço ainda por muitos anos. E agora, que venha o próximo aniversário!