As séries (nada) especiais

Todo mundo já se deparou com alguma história de um modelo especial, cujo número de unidades produzidas foi muito baixo, e contada com ar de verdade absoluta pelo proprietário ou algum entusiasta, apesar de não ter nenhuma explicação lógica ou registro onde quer que seja. O caso do Passat Pointer GTi, alardeado durante anos e que felizmente esfriou, é o mais emblemático na nossa área. Conheci até quem jurava ter visto um dos exemplares. Mas… foto que é bom, né?

Outro bom exemplo é que quase todo carro tem, aos olhos dos mais deslumbrados, uma “Série Prata”. Está certo, alguns modelos tiveram mesmo. Numa puxada rápida de memória, o Ford Landau em 1976 e o Fusca em, salvo algum engano, 1980. Porém não é tão raro alguém enfeitar um anúncio dizendo “Raro modelo Fulano da série prata, com poucas unidades produzidas em 1542 sob ordem do Império Neozelandês”. E a grande característica dos modelos anunciados é somente a cor prata, disponibilizada na linha daquele ano e para aquele carro.

O passateiro Saymon Machado encontrou uma nova pérola entre as séries especiais que nunca foram especiais. Acabamos de descobrir que a Volkswagen, logo após o lançamento da linha 79 do Passat, uma das mais importantes de sua história e que o manteve em seu período de maiores vendas, resolveu retroceder por um breve momento e produziu 5000 unidades com a frente do modelo anterior.

Fico me perguntando de onde sai tanta criatividade da pessoa que inventou tal história e tanta ingenuidade de quem por ventura possa ter acreditado. Fico até imaginando um alto executivo da VW, ávido pelo aumento de vendas e por modernizar os produtos da empresa, ordenando que toda a linha de montagem seja revertida pra produzir o mesmo modelo feito nos 5 anos anteriores. E depois imagino os consumidores, igualmente sedentos por novidades, entrando na concessionária e escolhendo o modelo com cara de antigo pra levar pra casa. A cena pode parecer real em 2013, dependendo do gosto de cada um por um Passat mais novo ou mais antigo. Mas em 1979, certamente não.

Portanto, sempre tenha muito cuidado antes de acreditar em qualquer história mirabolante, mesmo que ela não seja contada logo após uma pescaria.

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Passat Iraque

Adesivo Passat Iraque? Nada que uma gráfica não resolva!

A foto acima foi retirada de um anúncio de um site de vendas no ano de 2006. Não se trata de uma versão nem de uma série especial. É apenas um criativo adesivo que foi feito para personalizá-lo.

O nome dessa versão era LSE e não vinha com qualquer idenficação com o país do Oriente Médio, para onde as unidades eram destinadas até um breve período de interrupção do contrato, em meados de 1986, criando um excedente que foi vendido no mercado interno.

Mas o apelido pegou e foi difundido até pelos meios de comunicação, gerando em alguns consumidores a idéia de que o nome da versão de 4 portas daquela época era mesmo “Iraque”. E mais: ainda hoje muitos se confundem e chamam, de maneira equivocada, qualquer Passat de 4 portas, mesmo os mais antigos como os da versão 75~78, pelo mesmo apelido, sem ter a menor idéia do motivo.

Bem aceito no Brasil, não esquentava na concessionária. Com um interior bem acabado, 4 portas e o desejado ar-condicionado de série, item que era um opcional não muito frequente mesmo em modelos de maior valor. Além disso, algumas concessionárias ofereciam também a instalação do sistema de direção assistida, que nunca foi disponibilizada pela fábrica. Tudo isso por um valor pouco superior ao Passat LS com alguns opcionais. Com tantas qualidades, o Passat LSE “Iraque” chegou a ter fila de espera nas autorizadas.

Em breve escreveremos mais sobre a versão LSE, um carro querido no Brasil e no Iraque.

Crédito pelas fotos: André Grigorevski e Henrique Renke

Passat Pointer GTi?

A internet, desenvolvida a partir do final dos anos 1960 e popularizada nos anos 1990, nem sempre foi vista com bons olhos como fonte e referência de informações. Será que podemos realmente confiar em tudo que lemos sobre Passat?

Na rede desde 1996, o site Home-Page do Passat concentra a maioria das informações publicadas em revistas especializadas disponíveis sobre o Volkswagen Passat nacional. Para ter uma idéia do pioneirismo sobre o tema, até na esfera internacional eram escassas as informações disponíveis na internet à época.

Há muitos anos envolvidos com o tema Passat na internet, não é difícil ouvir alguém dizer que “o Passat nacional mais raro é o Passat Pointer GTi”. Pior ainda é ver a quantidade de gente concordando ou até dizendo que o carro é “muito lindo”.

Basta procurar no site alguma informação sobre versões do Passat e não encontramos a referida versão “Pointer GTi”.

Afinal, existiu o “Passat Pointer GTi” nacional?

A sigla GTI:

Nascido a partir de estudos feitos por engenheiros alemães pelo ímpeto de criar algo diferente e divertido, o Golf GTI recebeu o aval da empresa e passou a ser comercializado em 1976. À época eram poucos os carros compactos que conseguiam fazer de 0 a 100 km/h em menos de 14 segundos.

Golf GTI mkI, cultuado até pela própria VW.

Sucesso de público e de crítica, o Golf GTI criou um nicho de mercado, os Pocket Rockets, pequenos foguetes que deixavam muito carro esportivo vermelho de raiva, pois era uma nova e ágil forma de diversão.

O culto pela sigla GTI fez com que os demais fabricantes colocassem a técnica à prova e temperassem mais seus compactos, dando a eles mais que um punhado de adesivos.

Lá veio a Sunbeam com um pacote Lotus, a Vauxhall e seu apimentado Chevette 2300 HS, além do lendário Peugeot com a sigla GTI e um motor de 1900 cm³.

Um Passat GTI alemão:

Tal qual a lenda brasileira, no final dos anos 1970 um diretor da VW AG pediu à engenharia um modelo especial.

Tratava-se de um Passat GTI, usando elementos mecânicos já presentes no Golf e Scirocco esportivos e aplicando um belo tom de azul, que por coincidência surgiu em 1984 no Brasil, por meio do Voyage Los Angeles.

O que acontecia na Ala 0 e na engenharia da fábrica brasileira da VW:

A fábrica da VW no Brasil recebeu alguma autonomia nos projetos no final dos anos 1960, de onde surgiram projetos que não encontravam similares no resto do mundo. Dos mais notáveis, o SP2 e o Brasilia.

Isso fortaleceu o investimento na engenharia nacional da fábrica e muitos produtos foram desenvolvidos aqui, entre eles a linha Gol e derivados.

Segundo funcionários da empresa, entre erros e acertos, era comum saírem protótipos da engenharia que sequer chegavam ser divulgados. Alguns eram apresentados nos salões do automóvel e estudos de carros de linha circulavam pelas ruas da fábrica 1.

O marketing requisitava projetos à engenharia, com acabamentos, pinturas e equipamentos experimentais para serem apresentados em clínicas com consumidores. Os protótipos que tinham numeração de chassis, eram vendidos depois de serviços prestados. Aqueles que não poderiam circular nas vias públicas viravam sucata.

Da Ala 0, saíam alguns carros especiais, geralmente dos funcionários, diretores, gerente e demais pessoas envolvidas com a fábrica. Os trabalhos eram tão interessantes que há casos especiais, encontrados na linha Santana. Bom exemplo era a resistência da VW até 1986 em fornecer um Santana na cor branca. Vemos alguns exemplares sobreviventes, a maioria destinados à diretoria e pedidos especiais de revendedores obtidos após muito custo.

No mesmo sentido, a Santana Quantum CD. As únicas versões oferecidas ao público eram CS e CG. A própria fábrica liberou um lote de produção de uma Santana Quantum na versão CD,destinado em parte aos pedidos de revendedores (que não cobravam barato por isso) ou incorporada pela frota e usada pela diretoria, posteriormente vendida aos funcionários após alguns anos de serviços prestados.

Um dos poucos protótipos com o Passat que se tem notícia foi um LSE 1985 na cor Cinza nobre, com motor 1.8, teto solar Karmann Ghia e câmbio automático do Santana. Esperamos obter mais informações sobre esse

Era comum ver Parati 2.0, Passat GTS Pointer com direção hidráulica e inúmeros VW Fox para exportação circulando na frota da fábrica, tudo obra da Ala 0. Entre esses carros, a obra da engenharia, o projeto BY. Um Gol com traseira diferente e mais compacto, que nunca foi para linha de montagem.

Afinal, a Ala 0 ou a engenharia fizeram algum Passat Pointer GTi?

Funcionários que vivenciaram essa época relatada na lenda foram entrevistados pelos editores deste blog e afirmam que nunca viram sair da Ala 0 ou da engenharia qualquer coisa parecida com um Passat travestido de GTi.

O Passat já era um projeto esquecido pela Volkswagen, tanto que no salão do automóvel de 1988 ele poderia ser visto pelo público com três rodas de liga e um estepe com roda preta. A novidade era o Gol GTi.

Diz a lenda que 10 modelos foram produzidos pela Volkswagen e entregues à diretoria. Caso estes 10 exemplares tivessem sido produzidos, é de se esperar que pelo menos um teria aparecido em algum canto do Brasil.

Para se ter uma idéia, o IBAP Democrata, um carro fabricado apenas para protótipo na década de 1960, sobreviveu com pelo duas unidades já restauradas. Outro carro, o FNM Onça que das 4 unidades produzidas, sabe-se de pelo menos duas.

Sem contar o Puma GT 4R, um carro dado como desaparecido após o sorteio de 1970 com apenas um sobrevivente encontrado nos anos 1990, que em pouco tempo na última década e com a popularização da internet, foi possível encontrar não só as outras duas unidades sorteadas pela revista, mas até um 4º carro feito para uso pessoal de seu idealizador. Por fim, um protótipo Willys Interlagos feito para uso de seu presidente foi encontrado em 1993 e hoje é preservado.

Não seria estranho que após mais de 10 anos dessa lenda, ainda não tenha surgido nenhuma foto de época e nem algum sobrevivente desse tal Passat Pointer GTi?

A resposta é simples, amigos: nunca houve um Passat Pointer GTi fabricado pela VWB.

Você pode até ver algum Passat de para-choques envolventes com a maior parte inferior pintada de prata e com algum adesivo GTi. Isso não passa de personalização feita pelo dono, a maioria de gosto duvidoso.

Embora a história tenha elementos verdadeiros como todo Hoax, sem dúvida é uma pena que os objetivos da fábrica distanciavam-se do Passat B1.

Sabe-se que a Ala 0 não tinha acesso restrito, como era na engenharia. Na época era habitual montar grupos para visita à fábrica, o que hoje é restrito apenas a pessoas envolvidas com a fábrica ou que trabalham com a venda de veículos da marca. É de se estranhar que ninguém que tenha participado do dia a dia da empresa não tenha informações sobre esse modelo.

No mito há o relato que os carros foram fabricados e entregues aos diretores. Se assim fosse, teria sido divulgado internamente e seria digno de um evento ou solenidade de entrega.

Portanto, não é plausível que esse carro tenha sido produzido em razoável quantidade e entregue a diretores. Alguém teria visto na fábrica, alguém teria participado do desenvolvimento ou algum exemplar estaria numa coleção.

Vamos jogar?
A cor: Azul Mônaco. Motor: 2000 com injeção eletrônica multiponto. Interna: tecido com detalhes em azul, bancos Recaro, volante e manopla revestidos em couro, iluminação vermelha. Para-choques com pintura em preto e prata e logotipo lateral e traseiro com o logo “Passat Pointer GTi

Voilá…

Passat Pointer GTi. arte: Saymon Machado

Agradecimentos aos amigos Cláudio P. Pessoa, Marcelo Nadólskis e Saymon Machado. Em especial ao editor André Grigorevski, após tantos anos suportando relatos desta lenda.

Câmbio alemão?


A caixa de marchas que equipou o Passat até 1976 é conhecida desde aquela época como “câmbio alemão”. Criticado por muitos, o grande problema deste câmbio era o engate da 1ª marcha, que vez ou outra se confundia com a ré e poderia causar pequenos acidentes. Questão de costume… Porém, desde o início da produção do Passat em território brasileiro o câmbio foi feito nas dependências da Vokswagen, em São Bernardo do Campo.

O que motivou o apelido? Não tenho idéia. Não que o Passat nacional não utilizasse em sua produção peças alemãs. Encontramos, principalmente nos primeiros anos de produção, itens “Made in W. Germany” como tampa e rotor do distribuidor, interruptor do ventilador do radiador, sem esquecer o famoso Solex (de fato) alemão de corpo duplo que equipou o Passat TS a gasolina. Mas se havia algo que era de fabricação brasileira, podemos afirmar que era a caixa de marchas, que foi inclusive exportada para, entre outros países, a própria Alemanha.

O câmbio “alemão” deixou de equipar o Passat a partir de meados de outubro de 1976, com o início da produção da linha 1977.

A foto utilizada neste post tem circulado na Internet há algum tempo, sem referência do mês ou ano.