Quem diria…

Uma curiosa situação de quase 50 anos atrás me mostra o amigo Hugo Bueno, um grande pesquisador da história dos carros brasileiros e dono da Kombi mais linda que conheço (entre outros carros fantásticos). Interessante a ponto de merecer uma alteração no nosso artigo da área Antepassados, que será feita em breve. No longínquo 15 de julho de 1970, o “Caderno de Automóveis e Turismo” do Jornal do Brasil publicou em sua capa uma foto do Volkswagen K70, com um pequeno texto sobre o então recente modelo da montadora alemã, citando ser um modelo médio com tração dianteira.

Nota sobre o K70 no Jornal do Brasil do dia 15 de julho de 1970.
Nota sobre o K70 no Jornal do Brasil do dia 15 de julho de 1970.

A edição seguinte do mesmo caderno, publicada no dia 22 de julho, acabou trazendo uma matéria que ocupava toda a primeira página e detalhava o K70. No novo texto foi revelado o motor dianteiro refrigerado a água e demais características “anti-VW”, como muito seria ouvido anos mais tarde no lançamento do Passat por aqui. Nada mais natural, já que a VW sempre bateu na tecla da robustez e confiabilidade dos seu motores refrigerados a ar para convencer o público consumidor a comprar seus produtos. E a Volkswagen estava certa. Até hoje os Fuscas e derivados são aclamados, com toda justiça, por sua confiabilidade e simplicidade mecânica. E isso era ainda mais justificável se levarmos em conta os problemas comuns de refrigeração que modelos de outras marcas sofriam, principalmente nas décadas anteriores. Aqui no Rio de Janeiro, quem viveu aquela época conta que era muito comum subir a serra de Petrópolis e ver vários carros, principalmente os produzidos até os anos 60, parados no acostamento, com o capô aberto e o inconfundível vapor saindo do radiador. Isso sem falar de outros problemas comuns. Mas a tendência natural é que a indústria evolua, e aos poucos os carros refrigerados a água tiveram esses (e outros) problemas minimizados.

Matéria detalhada publicado pela mesmo jornal no dia 22 de julho de 1970.
Matéria detalhada publicado pela mesmo jornal no dia 22 de julho de 1970.

A Cia. Santo Amaro de Automóveis, uma das maiores e mais famosas revendedoras Ford que o Rio de Janeiro já teve, acabou usando a matéria sobre a concorrência para tirar vantagem. Num ato que nos anos 70 poderiam classificar como pura gaiatice, publicou na edição do dia 2 de agosto do mesmo jornal um anúncio onde constava um recorte da primeira matéria e o bem humorado título “Quem diria”. O texto, logo abaixo da foto do K70, dizia que “A princípio pensamos que era brincadeira. Mas quem publicou a matéria é um jornal muito sério pra brincar com coisas assim.” Em seguida, comentava as duas matérias publicadas sobre o novo Volkswagen, citando ser um carro de motor e tração dianteiros, refrigerado a água e motor com 5 mancais.

Anúncio da Cia. Santo Amaro (Jornal do Brasil, 2 de agosto de 1970)
Anúncio da Cia. Santo Amaro (Jornal do Brasil, 2 de agosto de 1970)

E observava: “A Volkswagen acabou adotando as características principais do nosso Corcel, que já tem 2 anos e mais de 70 mil possuidores. O Corcel vem provando há mais de dois anos que tração e motor dianteiros, atuando diretamente sobre as rodas, aumentam a estabilidade, principalmente nas curvas e em alta velocidade.” A conclusão era que “o mundo está indo para a frente. Não fique atrás. Compre Corcel.”

É, Volkswagen… Às vezes é bom reconhecer os bons argumentos da concorrência. Quem diria!

O pioneiro

Nem todo mundo imagina que o Passat não foi o primeiro VW refrigerado à água no mundo. No Brasil sim, o Passat trouxe a novidade para a marca e seus consumidores. Porém, na Alemanha a honra coube ao menos conhecido K70, um projeto herdado da NSU, recém adquirida pelo grupo Volkswagen. O praticamente pronto NSU K70, projetado para substituir o belo NSU Ro80 com seu frágil motor Wankel, transformou-se em VW K70.

NSU K70
NSU K70

Suas linhas retas eram diferentes de tudo o que a Volkswagen tinha produzido até então. O motor utilizado inicialmente era um 1.6 com 4 cilindros em linha, que nada tinha de parecido com os utilizados posteriormente nos outros modelos da VW. Os 69 HP de potência não impressionavam e faziam o K70 chegar até cerca de 145km/h. Posteriormente uma versão com motor 1.8 e 99 HP foi oferecida e levava os 1500kg do K70 até 165km/h. O câmbio era manual de 4 marchas.

O modelo foi produzido entre 1970 e 1975 na unidade de Salzgitter, com pouco mais de 210.000 unidades produzidas. Se não é um modelo muito lembrado na história da marca e praticamente desconhecido entre os brasileiros (exceto por aqueles que gostam do assunto), devemos a ele um certo respeito. Afinal, rompeu as barreiras na VW não apenas pela refrigeração, mas também por ter motor e tração dianteira. E assim, abriu caminho para o lançamento de um produto de características semelhantes e que dispensa apresentações entre nós: o Passat.

VW K70
VW K70

A importação dos K70 para o Brasil é um assunto difícil de ser esclarecido, mas algumas unidades vieram pra cá, assim como alguns TL produzidos também na Alemanha, em suas diferentes versões, e até mesmo os curiosos 412. Há anos ouço sobre a existência de um K70 em restauração no Rio de Janeiro, porém nunca soube maiores detalhes pra tentar ir atrás. Há alguns anos surgiu um exemplar em São Paulo para venda. Não tenho notícias de seu paradeiro atual, mas ainda guardo algumas fotos, que vocês podem conferir abaixo.

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