Programa de renovação da frota

Reciclagem de carros - Passat TS
Créditos da imagem: Detran-RS

Já deveríamos estar acostumados… Há anos, de tempos em tempos, pipocam notícias com títulos assustadores para quem tem carros mais antigos, com uma teórica ameaça sobre nossos “velhinhos”. Dessa vez a outrora ótima revista Quatro Rodas foi a bola da vez, publicando a matéria cujo título é “Governo quer tirar das ruas carros com mais de 15 anos”. O título é, de fato, desesperador… Como assim vão tirar os carros de seus legítimos proprietários? Logo começa o desespero, a ladainha, o chamado mimimi que tanto nos assola nas redes sociais. Ao abrir a matéria para ler (ler a matéria… leitura… lembram do último post?), percebe-se que é apenas a idéia de um programa de renovação da frota que o Ministério do Desenvolvimento parece estar prestes a lançar (após cerca de 20 anos de especulações), onde o proprietário de um carro com mais de 15 anos poderá, caso ele queira, entregar seu veículo em uma concessionária e receber uma carta de crédito para a compra de um veículo 0km. O carro entregue será destinado a reciclagem. Em resumo: não seria obrigatório. Mas, título sensacionalista lançado e grande parte do público de hoje que é leitor apenas de títulos começa a reclamar. Muitos comentários na própria matéria da Quatro Rodas chegam a ser cômicos, pois fica claro que a pessoa não se deu ao trabalho de ler nada além do título. Ou seja: mais um dia comum na internet. Numa rápida pesquisa pelo Google, encontrei outras matérias de sites ou jornais famosos, com títulos mais realistas e menos assustadores. E com isso o público passa a se preocupar com algo desnecessário (“Oh, meu Deus! Vão tirar meu carro!”) e deixa de debater o que realmente importa sobre o assunto.

Desespero esclarecido, vamos aos fatos. Em primeiro lugar: não é e nunca será nosso objetivo aqui tratar de assuntos políticos e muito menos tomar partido de lado algum. Mas sim apenas analisar fatos deste tipo quando estes podem nos afetar. Dito isto, o programa de renovação da frota, caso de fato seja lançado, viria com o objetivo de alavancar a indústria automobilística nacional, que sofreu uma forte queda nos últimos meses. Mas daria certo? Vamos imaginar uma situação cotidiana, possivelmente a mais comum entre os proprietários de carros com mais de 15 anos. Esqueçam os veículos de coleção, de placa preta, pois estes certamente não entrariam em nenhum programa desse tipo. O Sr. João tem o seu carrinho mais antigo, nem vamos falar de Passat aqui. O Sr. João tem um Santana ou Monza dos anos 90. É o carrinho que ele, chefe de família que não ganha um bom salário, conseguiu comprar com muito esforço. E com o mesmo esforço ele consegue manter o carro rodando. A maioria dos modelos antigos tem peças baratas. É bem barato comprar pastilhas de freio, correias e outras peças de desgaste mais comum. Em outras palavras: mesmo que o salário não permita manter um carro antigo em condições impecáveis de estética (sempre vai ter o arranhãozinho ali, aquele amassadinho que “mês que vem a gente vê se dá pra consertar”, o pára-choque com a quina ralada…), é possível pra muitas famílias manter um veículo mais antigo rodando com segurança para servi-los, o que é um direito de todo mundo. É possível até mesmo manter um veículo como esse com sua documentação regularizada, pois a maioria dos estados brasileiros isenta os veículos mais antigos do pagamento do IPVA. E assim o Sr. João consegue rodar pelo seu bairro, levar a família no shopping, na casa da avó, carregar as compras do mercado. Alguns “Sr. João” conseguem até trabalhar com o carro e levar bastante coisa dentro da mala, tirando do automóvel o seu sustento. No máximo, o Sr. João arrisca um passeio até a praia durante o verão, porque ninguém é de ferro e as crianças querem aproveitar o sol e o mar. Essa é possivelmente a média do uso desse tipo de carro.

Como imaginar que o Sr. João, ao entregar o seu Monza ou Santana para o abate em uma concessionária e receber uma bela carta de crédito no valor da tabela FIPE (talvez seja isso, não ficou claro nas matérias desta semana que tratam sobre o assunto), conseguirá absorver as prestações do seu novíssimo carrinho popular? O Sr. João conseguirá pagar o próximo IPVA? Quando chegar a época da revisão, o Sr. João conseguirá pagar o serviço (muitas vezes caríssimo) da autorizada pra não perder a garantia e manter o carro em condições, como ele fazia no seu velho carro, que tinha a aparência já cansada, mas funcionava como um relógio? Notem que até agora eu não falei que o Sr. João contrataria um seguro pra proteger o novo patrimônio da família e, com isso, absorveria mais um gasto importante. E em alguns anos, o carrinho novo do Sr. João chegará a um nível bem pior do que o velho carro que ele usava antes, assim como a sua conta bancária. Mas não haveria ninguém beneficiado por este tipo de programa? Certamente haveria, sempre há. Mas na minha opinião, do modo que está sendo divulgado até agora, os beneficiados seriam poucos, assim como o aumento das vendas e o de carros realmente em péssimo estado que seriam retirados de circulação seria pequeno .

O programa de renovação da frota pode até ter boas intenções, pode ter a utopia de que isso ajudará a indústria, de que trará a muitas famílias as benesses de um carro 0km. Não se iludam, muitos de nós adoramos carros antigos até para o uso diário, mas a maioria das pessoas comuns só os utiliza por não poder pagar por um carro novo. Mas esse tipo de programa parece sempre ser pensado de maneira superficial, como quase tudo no Brasil, e nunca analisando se é possível para uma família média brasileira manter em plenas condições um carro 0km, tanto mecanicamente quanto com relação aos seus impostos anuais e um eventual seguro. E isso porque não entramos em detalhes como qual seria o destino dessa reciclagem dos carros usados (se é que “reciclagem” seria o termo correto), de onde viriam os recursos necessários para esses créditos que serão dados na troca pelo carro usado, entre outros, já que não é este o papel da Home-Page do Passat.

Por enquanto, essa história toda só serviu pra uma coisa: desesperar o público que se informa apenas pelo título das matérias.